Marcelo Luís de Souza Ferreira

A história é muito conhecida.
Jesus e seus discípulos são convidados para uma festa de casamento em Caná da Galileia mas, no decorrer do evento, os organizadores se dão conta de que não têm mais vinho para oferecer aos convidados. Maria se aproxima do seu filho, relata o problema e pede que os serviçais façam tudo o que Jesus determinar. Jesus então pede que sejam enchidas seis grandes vasilhas de água e, uma vez enchidas, determina que as vasilhas sejam levadas ao mestre de cerimônia da festa, o qual, ao provar do conteúdo de tais vasilhas, constata haver vinho. Mas não um vinho qualquer e sim um vinho melhor do que o que até então havia sido oferecido aos convidados.
Trata-se do primeiro milagre de Jesus, conforme relatado na Bíblia. E ele pode ser lido no Evangelho de João, capítulo 2, versículos de 1 a 11: Jesus transforma água em vinho.
Interessante que esse tenha sido o primeiro milagre, dando início a um ministério de espantosas realizações de Jesus na terra.
Afinal, nada do que Deus planejou realizar enquanto seu Verbo estivesse encarnado foi aleatório. Tudo foi milimetricamente calculado e todas as Suas ações estavam repletas de propósito e significado.
Essa passagem em especial nos faz refletir sobre muitas coisas: a importância do casamento e da alegria no casamento na mente de Deus, a diferença que faz a presença de Jesus no casamento e na vida, a fé e a obediência a Deus como requisitos para se alcançar um milagre…
São realmente muitos os ensinamentos que podemos extrair desse relato bíblico, mas há um em especial que tem me chamado a atenção: o tipo de milagre realizado.
Não tenho conhecimento de que com todo o nosso avanço científico e tecnológico o homem tenha conseguido transformar a água em vinho, sem adicionar nenhuma outra substância, ao longo de toda a sua história.
São substâncias totalmente diferentes, de natureza distinta e o homem não consegue mudar a natureza das coisas apenas pela sua vontade.
Podemos até mudar o estado delas. Então o líquido passa a ser sólido ou gasoso. Mas a água continua sendo água, a não ser que a misturemos com outra coisa qualquer.
Então, é significativo que Jesus tenha se apresentado publicamente pela primeira vez com esse sinal em especial.
Na verdade, sendo esse seu “cartão de visitas”, é como se Ele nos dissesse: “Oi, Eu Sou Jesus, o único capaz de mudar a natureza das coisas”.
Isso é forte! Mas é de fato o que se pode sintetizar de todos os evangelhos.
Analisando seus discursos, seus ensinamentos, suas ordenanças e sua postura é possível perceber que essa sempre foi a real proposta de Jesus: mudar a natureza das coisas, ou melhor, das pessoas.
No mundo encontramos milhares de religiões, seitas, crenças e terapias que prometem “melhorar” o ser humano, evoluí-lo, mas sempre partindo do que o homem já é, sem a pretensão de alterar a sua natureza. O que é normal, já que o homem não tem o poder de alterar aquilo que é em essência.
Jesus, no entanto, vai muito além, pois é o único capaz de transcender a tudo isso. Jesus oferece mudar a substância, a natureza do ser-humano que nEle crer de todo o coração e se entregar por completo.
Nicodemos, quando procurou Jesus, ouviu do próprio Mestre que teria de nascer novamente, com uma nova natureza, porque “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).
A Simão Pedro, quando se reconheceu pecador e teve noção da santidade de Jesus, a proposta do Mestre foi “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens.” (Lucas 5:10), o que também implica mudança de natureza.
Na realidade, Sua proposta a cada um de nós sempre foi radical, sem meio-termo:

“Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me” (Mateus 16:24)
“Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.” (Mateus 16:25)

“Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna. Porém muitos primeiros serão derradeiros, e muitos derradeiros serão primeiros.” (Marcos 10:29-31).


A proposta de Jesus é a de morrer para o mundo e nascer de novo… agora para Ele. Uma nova pessoa, uma nova vida, uma nova realidade, uma nova natureza.
Pensando bem, Jesus não poderia se apresentar ao mundo de outra forma. Ele é Deus, sempre foi e essa ainda é a proposta de Deus para a humanidade caída: mudar a sua natureza.
Ao longo de toda a Velha Aliança Ele vinha mostrando isso.
Transformou um velho Abrão, sem filhos, no Abraão pai de numerosas nações.
Fez de um Jacó, trapaceiro e fugitivo, o seu povo Israel, detentor da promessa de derramar benção sobre todos os povos.
Levou José da cilada de morte e da escravidão ao governo do Egito.
Pegou um assassino refugiado no deserto e o transformou no Moisés libertador, homem que tirou todo o povo de Deus da escravidão do Egito e o levou às portas da terra prometida.
Fez da prostituta estrangeira Raabe, da amaldiçoada Rute e da viúva Noemi mulheres dignas de figurar na árvore genealógica do Rei dos reis.
Levantou Gideão, um homem que malhava trigo às escondidas, com medo dos inimigos, para torná-lo juiz e libertador de seu povo.
Transformou um menino que era desprezado pelo seu próprio pai no grande e poderoso rei Davi.
Deus não melhorou essas pessoas. Deus mudou a sua natureza.
Essa sempre foi a Sua intenção conosco. Um Deus que transforma a fraqueza em fortaleza, a perda em vitória, a tristeza em alegria, o sofrimento em amor, a morte em vida.
Esse ainda é o seu projeto para a vida de cada um de nós.
Pegar uma vida sem propósito, sem sonhos, já sem esperança nem fé e lhe dar substância, sabor, textura e aroma.
Transformar a água da sua vida no melhor dos vinhos, numa nova natureza, para que dela sejam saciadas outras vidas.
Para isso veio Jesus, “o único capaz de mudar a natureza das coisas”.
Basta levar a Ele a sua vasilha gasta, cujo conteúdo insípido já não atrai nem mesmo a sua própria atenção e deixar que Ele diga o que deve ser feito.
Então faça. Simplesmente faça o que Ele determinar, como fizeram os serviçais do casamento realizado em Caná da Galileia, e observe o resultado.
Creia! Ele ainda transforma a água em vinho.

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