Marcelo Luís de Souza Ferreira

Não sei se as crianças ainda fazem dessa mesma forma, mas na minha infância era comum fazermos brincadeiras nas quais nos dividíamos em equipes e uma disputava com a outra.
Formávamos times de futebol de rua, de queimada, de vôlei, pega-bandeira.
Com toda a garotada da rua reunida, os líderes (normalmente os mais velhos) iam à frente para formar cada um a sua equipe, alternando-se na escolha dos membros.
Não tenho visto mais as crianças brincarem assim.
Aliás, nesse mundo em que as pessoas se tornam reclusas em suas próprias casas e se isolam em si mesmas, nossas crianças estão perdendo a oportunidade de brincar com outras crianças e assim se compreenderem como parte de um todo.
Mas, voltando às minhas lembranças, o que me vem à memória agora não são exatamente as brincadeiras que fazíamos. O que me vem à mente é a sensação, a alegria de ser escolhido.
Ficávamos ali, muitas vezes sentados no meio da rua, aguardando que algum daqueles líderes nos escolhessem. E quanta expectativa!
A frustração, no entanto, era perceber que você havia sido esquecido, deixado entre os últimos, havia sobrado… estava no grupo dos indesejados e já não era mais uma opção real de escolha.
Mas ser escolhido, ser desejado como integrante do time gerava satisfação ímpar. Melhor ainda era quando você estava quieto em casa e seus amigos vinham até o portão lhe chamar para fazer parte do time da rua numa disputa contra a rua de baixo.
Você era importante! Tinha sido lembrado. Tinha sido escolhido.
Interessante como essa expectativa de ser escolhido nos acompanha por toda a vida, talvez para nos revelar um desejo maior, algo que faz parte do nosso ser e que justifica a nossa própria existência.
Crescemos, mas continuamos na esperança de sermos escolhidos para namorar a menina que aos nossos olhos é a mais bonita do mundo. Ansiosos para sermos escolhidos na seleção por uma vaga de emprego. Tensos até sermos escolhidos no processo seletivo de uma faculdade ou curso de pós-graduação.
E como é boa a sensação de que fomos escolhidos! Fomos notados no meio de uma multidão. Fomos separados para algo porque alguém achou graça em nós.
Temos a opção de escolher muitas coisas, conforme tais coisas nos agradem, mas nada se compara ao prazer de sermos escolhidos.
Exemplo disso foi o que ocorreu com Filipe e Natanael.

“No dia seguinte quis Jesus ir à Galiléia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me.
E Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.
Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.
Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem, e vê.
Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.
Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira.
Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel.” (João 1:43-49)

E é exatamente assim que acontece conosco.
Há, de fato, muitas religiões e filosofias criadas pelos homens no mundo em que vivemos. E você pode sim escolher entre uma ou outra, segundo o que lhe parecer mais lógico, cômodo ou prazeiroso. Você escolhe seguir um determinado grupo, uma determinada seita ou uma determinada igreja.
Mas o que Jesus faz é diferente. Ele nos faz lembrar daquela sensação que tínhamos quando crianças, sendo escolhidos para fazer parte do time de futebol da rua, da equipe de queimada, da turma do vôlei.
Ele simplesmente chega e diz: “Segue-me. Eu te escolhi.”
As coisas podem não fazer muito sentido num primeiro momento. Afinal, como disse Natanael, “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”, “de onde me conheces tu?”.
Você pode relutar por não compreender o que está se passando dentro de você, já que no íntimo você está sendo levado a se entregar a algo ou “alguém” que não lhe faz muito sentido.
Na sua mente, talvez todas as outras coisas que você já viu, ouviu ou estudou façam muito mais sentido.
No seu coração, talvez você não enxergue em si qualquer qualidade que pudesse lhe colocar no time dos eleitos. Nenhuma santidade, nenhum ar de piedade.
No íntimo, talvez você não se veja como merecedor. E, de fato não é. Você não estava fazendo nada digno de destaque. Estava só debaixo da árvore como Natanael.
Não há lógica mesmo, mas é inútil resistir. Mesmo porque, embora você não se visse com as qualidades necessárias para integrar a equipe mais forte, todo o seu ser na realidade sempre desejou ardentemente por isso. Como o menino que ficava sentado na rua, torcendo para ouvir o seu nome sendo chamado.
E chegou a sua hora. Seu nome foi dito. Ele achou graça em você e você foi chamado.
Por isso você está inquieto. Contra toda a lógica do seu pensamento humano, contra todos os desejos do seu próprio corpo, você se sente movido naquela direção. Na direção de quem está chamando.
E só haverá descanso quando você sentir que realmente se tornou parte da equipe e que o jogo começou.
Alegre-se! Você foi escolhido.

“E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote.
E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns deste Caminho, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.
E, indo no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.
E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.
E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer.
E os homens, que iam com ele, pararam espantados, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém.
E Saulo levantou-se da terra, e, abrindo os olhos, não via a ninguém. E, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco.
E esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu.
E havia em Damasco um certo discípulo chamado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! E ele respondeu: Eis-me aqui, Senhor.
E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e vai à rua chamada Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele está orando;
E numa visão ele viu que entrava um homem chamado Ananias, e punha sobre ele a mão, para que tornasse a ver.
E respondeu Ananias: Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém;
E aqui tem poder dos principais dos sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome.
Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel.
E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome.
E Ananias foi, e entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo.
E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado.
E, tendo comido, ficou confortado. E esteve Saulo alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco.
E logo nas sinagogas pregava a Cristo, que este é o Filho de Deus.
E todos os que o ouviam estavam atônitos, e diziam: Não é este o que em Jerusalém perseguia os que invocavam este nome, e para isso veio aqui, para os levar presos aos principais dos sacerdotes?

Saulo, porém, se esforçava muito mais, e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que aquele era o Cristo.” (Atos 9:1-22)

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